Grupo de estudos da Faculdade de Direito da USP também propõe nova lei para crimes financeiros e mudanças nas regras de fintechs, bets, ouro e criptoativos
Uma agência nacional para cruzar informações de diferentes órgãos públicos e privados e ajudar a identificar como o dinheiro circula entre organizações criminosas. Essa é uma das principais propostas apresentadas pelo Grupo de Estudos sobre Lavagem de Dinheiro da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (GELD/USP) em um conjunto de medidas voltadas ao enfrentamento da lavagem de dinheiro e do crime organizado.
Coordenado pelo professor Pierpaolo Cruz Bottini, o GELD reúne professores e pesquisadores da Faculdade de Direito da USP e, desde 2022, desenvolve estudos sobre lavagem de dinheiro em diferentes setores, como fintechs, ativos virtuais, apostas esportivas e cadeia produtiva do ouro.
Para o cenário eleitoral de 2026, o grupo reuniu as propostas em um documento entregue aos coordenadores dos programas de governo dos candidatos à Presidência da República.
A proposta da Agência Nacional de Inteligência em Segurança Pública parte de um diagnóstico que se repete ao longo do estudo: a fragmentação das informações. A ideia é estabelecer padrões nacionais para estatísticas, protocolos e dados relacionados ao crime organizado e organizar o compartilhamento de informações entre os estados.
A agência também teria a atribuição de conectar órgãos que participam de investigações ou do cumprimento de decisões judiciais, incluindo cartórios, bancos, órgãos de trânsito, Receita Federal e Previdência. Outra frente seria financiar tecnologias para identificar, bloquear e recuperar ativos ilícitos, inclusive criptomoedas.
Segundo o GELD, hoje diferentes instituições podem ter apenas partes das informações necessárias para reconstruir a dinâmica de um crime.
O cruzamento desses dados permitiria, na avaliação do grupo, enxergar conexões que não aparecem quando cada informação é analisada isoladamente. Para Bottini, esse é justamente um dos principais gargalos atuais.
“O principal gargalo é o uso e a coordenação das medidas de inteligência para identificar e desarticular grupos criminosos, compreender a rede criminosa e sua articulação financeira.”
A agência proposta não teria a mesma função das demais estruturas de coordenação sugeridas no documento. O estudo diferencia a nova estrutura da ENPICD (Estratégia Nacional de Prevenção e Inteligência contra o Crime Digital), voltada à coordenação estratégica, e do SNIFD (Sistema Nacional de Integridade Financeira Digital), pensado para o monitoramento de padrões suspeitos no sistema financeiro digital.
A Agência Nacional de Inteligência em Segurança Pública teria uma função executiva: padronizar dados, interligar bases e financiar capacidade tecnológica para bloqueio e recuperação de ativos.
Lei de crimes financeiros seria substituída após quase 40 anos
O pacote também propõe uma nova Lei de Crimes Financeiros para substituir a Lei nº 7.492/1986, criada em um cenário de intermediação bancária muito diferente do atual.
A avaliação do grupo é que a legislação foi construída antes da expansão das fintechs, dos pagamentos instantâneos e dos ativos virtuais. Aplicar o texto antigo às novas tecnologias e instituições acaba gerando sobreposições e dúvidas.
Bottini resume o problema comparando a legislação a “uma roupa muito antiga que não se encaixa no novo dono”.
A proposta é elaborar uma lei já pensada para meios de pagamento instantâneos, ativos virtuais, fintechs e arranjos digitais, em vez de adaptar uma legislação concebida para o sistema financeiro tradicional.
Contas-laranja poderiam passar por validação a cada dois anos
Entre as medidas voltadas às fintechs, o GELD propõe uma Prova de Vida e Validação de Identidade Bienal. Instituições financeiras e de pagamento teriam de comprovar periodicamente, por meio eletrônico, a identidade dos clientes. O descumprimento poderia levar à suspensão da conta.
O estudo também prevê mecanismos de revalidação extraordinária diante de padrões considerados de risco. A medida mira as chamadas contas-laranja, que podem ser abertas em nome de uma pessoa e depois cedidas, alugadas ou controladas por terceiros.
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Segundo Bottini, criminosos podem chegar a essas contas por meio de fraude, com falsificação de documentos ou roubo de dados, mas também pelo convencimento ou coerção de pessoas para que emprestem ou aluguem suas contas.
Para o pesquisador, a facilidade de abertura de contas digitais aumentou a necessidade de mecanismos capazes de verificar se a identidade registrada continua correspondendo a quem efetivamente utiliza a conta.
O núcleo também propõe aperfeiçoar os critérios para que crimes digitais de grande escala, com impacto relevante sobre sistemas financeiros ou de pagamentos, possam ser investigados e julgados na esfera federal.
Nas bets, proposta é analisar a partida inteira
Uma das medidas mais específicas do documento está no mercado de apostas esportivas. O grupo propõe que o evento esportivo completo seja considerado a unidade de análise, em vez de cada aposta ser examinada isoladamente.
O objetivo é reunir as transações relacionadas a uma mesma partida para identificar padrões que poderiam passar despercebidos quando as apostas são analisadas individualmente. O mecanismo pode ajudar a identificar, por exemplo, apostas coordenadas e contrapostas feitas por diferentes “laranjas” em uma mesma partida.
Segundo Bottini, uma aposta isolada pode parecer absolutamente normal. O problema aparece quando todas as apostas relacionadas ao evento são reunidas: podem surgir movimentos em sentidos opostos, feitos por diferentes pessoas, que revelam uma estratégia coordenada.
Nesse modelo, um grupo pode distribuir apostas entre resultados diferentes, reduzindo o risco da operação. O apostador que aparece como vencedor recebe, então, um prêmio que pode dar aparência lícita ao dinheiro. Para o pesquisador, esse tipo de análise precisa ser considerado nas discussões sobre a regulação do setor.
O GELD também propõe que os apostadores declarem periodicamente a própria renda e uma chamada “disponibilidade de perda”, que funcionaria como um limite obrigatório para as perdas permitidas pelas plataformas.
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Ouro: rastreamento teria de sobreviver ao refino
A cadeia produtiva do ouro é outro ponto de atenção. O grupo propõe ampliar a proibição do uso de dinheiro em espécie para as diferentes etapas da cadeia, incluindo operações posteriores à primeira comercialização e o mercado de ouro reciclado.
Também defende que marcas físicas e digitais utilizadas para rastrear o metal permaneçam identificáveis mesmo depois da fundição e do refino.
A proposta inclui ainda ampliar as obrigações de prevenção à lavagem de dinheiro para atividades de tratamento, refino, beneficiamento e exportação, além de integrar informações da Polícia Federal e o fluxo de comunicações ao Coaf.
A preocupação é que controles concentrados apenas em determinados pontos da cadeia deixem brechas justamente nas etapas intermediárias.
Mais setores teriam de informar o Coaf
O chamado “Sufoco Financeiro” reúne quatro medidas propostas pelo grupo. Uma delas amplia o rol de setores obrigados a comunicar ao Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) operações suspeitas de lavagem de dinheiro.
A proposta inclui operadores de criptomoedas, bets e comerciantes de minérios e madeira, além de prever mecanismos para operacionalizar o envio dessas informações.
Outra medida cria um Cadastro Nacional de Bens Indisponíveis, com o objetivo de centralizar informações sobre ordens de bloqueio e dar maior integração ao processo de constrição e recuperação de patrimônio.
O grupo também propõe um cadastro nacional de Pessoas Politicamente Expostas (PEPs), apoiado por inteligência artificial, e mudanças na Lei de Licitações para impedir a participação ou contratação de empresas com ligação direta ou indireta com organizações criminosas, mediante identificação do beneficiário final.
Combate ao crime passa pelo caminho do dinheiro
Embora as propostas tratem de setores diferentes, o diagnóstico apresentado pelo GELD é comum: o avanço das novas formas de movimentação financeira exige que investigação, inteligência e regulação acompanhem a velocidade dessas mudanças.
Pix, contas digitais, criptomoedas, plataformas de apostas e cadeias econômicas complexas ampliaram as possibilidades de movimentação de recursos. Ao mesmo tempo, segundo o grupo, informações sobre essas operações permanecem distribuídas entre diferentes instituições.
Por isso, o documento não se limita à criação de novos crimes ou ao aumento de punições. A aposta central é melhorar a capacidade do Estado de identificar conexões, reconstruir a circulação dos recursos e chegar aos responsáveis pela estrutura financeira das organizações criminosas.
Para Bottini, entender essa articulação é fundamental porque o dinheiro não circula necessariamente por um único setor ou instituição.
É justamente nesse ponto que a proposta de uma agência nacional ganha espaço no pacote: transformar informações dispersas em inteligência capaz de reconstruir a rede financeira por trás do crime organizado.
Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/blogs/adriana-de-luca/nacional/sudeste/sp/usp-propoe-agencia-nacional-para-cruzar-dados-e-rastrear-dinheiro-do-crime/